Esquece qualquer visual limpinho de banda de rock. O Sarcófago subia no palco com a cara pintada de branco e preto tipo defunto ambulante, jaqueta de couro cheia de espinho, cinto de bala cruzado no peito e pulseira de espinho no braço — um figurino tão exagerado que hoje é basicamente o "uniforme oficial" copiado pelo black metal mundial.
E no centro de tudo, gritando mais do que cantando, estava Wagner Lamounier, o "Antichrist": cara debochado, língua afiada em entrevista, e o único integrante que ficou junto do baixista Geraldo Minelli do início ao fim da banda, de 1985 a 2000.
Nada de pacto satânico em cemitério, calma lá. O Sarcófago nasceu em 1985, em Belo Horizonte, no meio da mesma cena de heavy metal que também gerou o Sepultura — aliás, Wagner Lamounier tinha acabado de sair do Sepultura (banda ainda iniciante; ele nunca chegou a gravar nada com eles, só deixou de presente a letra da música "Antichrist") quando topou com o guitarrista Zéder "Butcher" Patrocínio, o baixista Geraldo "Incubus" Minelli e o baterista Armando "Leprous" Sampaio.
A estreia oficial saiu em 1986, dividindo a coletânea Warfare Noise I com outras bandas mineiras — faixas como "Satanas" e "The Black Vomit" já entregavam a receita completa: rápido, sujo e sem a menor vontade de agradar ninguém.
Se tem uma coisa que definiu o Sarcófago tanto quanto a música, foi a implicância homérica com o Sepultura. A coisa não ficou só em farpa de entrevista: o baterista D.D. Crazy chegou a quebrar uma garrafa na cabeça do guitarrista Andreas Kisser, recém-chegado à banda rival. Anos depois, quando Max Cavalera saiu do Sepultura, Lamounier disparou que não estava surpreso e chamou os irmãos Cavalera de interesseiros — Max devolveu o favor compondo "Bumbklaatt" pro primeiro disco do Soulfly.
Teve barraco também com o Ratos de Porão: depois de um show em que o Sarcófago tocou no lugar deles na abertura de uma banda gringa, a banda paulista invadiu o camarim e Lamounier, já embriagado, levou soco do vocalista João Gordo enquanto outros metiam corrente de moto na roda.
Fora as brigas externas, o próprio grupo quase não sobreviveu ao primeiro disco de peso: mal saiu o "I.N.R.I.", Butcher e D.D. Crazy caíram fora e Lamounier foi estudar Economia em Uberlândia, deixando a banda parada por um tempo. Teve treta jurídica também: a capa do disco seguinte, "Rotting", mostrava a Morte beijando o rosto de Jesus — a gravadora americana Maze Records censurou a arte sem avisar ninguém, e o Sarcófago processou.
Em 1987, o disco I.N.R.I. praticamente escreveu o manual visual e sonoro do black metal: cara pintada, correntes, blast beats disparados pelo baterista D.D. Crazy (um dos primeiros a usar aquilo pra valer) e produção suja de propósito. O efeito colateral foi gigante: anos depois o Euronymous, do Mayhem, ficou obcecado com o visual da banda e queria que a cena toda norueguesa se vestisse igual; o Fenriz, do Darkthrone, resume simples — "você compra ou morre".
Depois disso o grupo foi trocando de pele a cada disco: "Rotting" (1989) foi pro lado do crossover thrash, "The Laws of Scourge" (1991) virou o disco mais técnico e mais vendido da carreira, encostando no death metal, e "Hate" (1994) chocou geral ao trocar o baterista por uma bateria eletrônica.
| drwxr-x | Bathory | referência direta nos riffs cavernosos e no clima satânico que moldaram o primeiro disco |
| drwxr-x | Celtic_Frost | groove pesado e vocais rosnados que inspiraram a pegada suja da banda brasileira |
| drwxr-x | Mayhem | banda norueguesa que tratou o "I.N.R.I." como manual de estilo e agressividade |
| drwxr-x | Vulcano | banda mineira contemporânea, parceira de cena nos primórdios do extreme metal brasileiro |
| drwxr-x | Sepultura | raízes na mesma cena de Belo Horizonte dos anos 80, ainda que a relação tenha virado rivalidade histórica |